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| Terça-feira, 26 de
de 2006 |
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| Arthur
Dapieve Carla Rodrigues Guilherme Fiuza José Paulo Kupfer Leo Martins Luiz Antonio Ryff Marcos Caetano Marcos Sá Corrêa Paulo Roberto Pires Pedro Doria Ricardo A. Setti Ricardo Calil Ricardo Kotscho Roberto Benevides Santiago P. Fusco Sergio Bermudes Sérgio Rodrigues Tutty Vasques Villas-Bôas Corrêa Xico Sá Xico Vargas Zuenir Ventura A palavra é... (a)provada .Comportamento Contemporânea Convidados Economínimo Ensaio Entrevista Especial Esportes Fala Leitor Galeria Nonsense Olha só Papo de homem Política & Cia. Ponte aérea/RJ Ponte aérea/SP Reportagem Sexo nas bancas Tocatudo Todoprosa Weblog Busca avançada Quem somos NoMínimo Instale o feed de notícias O que é RSS? Nosso link em seu blog |
Barulho novo na MPB Guilherme Fiuza
Chicas são quatro mulheres jovens que fazem o seguinte: compõem, escrevem, arranjam, tocam, dramatizam e sobretudo cantam – cantam muito. Duas delas descendem da linhagem Gonzaga. Duas outras descendem de outras linhagens que não aparecem no release (até porque não há release), mas cuja característica principal deve ter sido fazê-las cruzar na vida com as duas primeiras. Amora Pêra, Fernanda Gonzaga (filhas de Gonzaguinha), Isadora Medella e Paula Leal formam um encontro musical invocado. Seu primeiro CD, “Quem vai comprar nosso barulho?”, faz um barulho diferente na MPB. Não são quatro cantoras se revezando em solos e backing vocals. São quatro vozes formando uma (01) entidade sonora – com personalidade tão clara quanto os mais marcantes grupos femininos, como um Quarteto em Cy ou Frenéticas. Mas muito diferente deles. As Chicas têm o frescor e a densidade de um grupo de cantoras que compõe, arranja e toca suas próprias canções. Podem olhar no retrovisor que não avistarão notícia parecida. Mas não adianta muito ficar lendo essas palavras. Escrever sobre música é uma dessas tarefas platônicas, sempre se estará na periferia do sentimento. Ponham logo para tocar a balada “Ter que esperar”, de Paula Leal, (Clique aqui para escutar) depois voltem aqui para entender do que se trata. E então, ouviram? Entenderam? Agora podemos voltar às palavras. O que significa isso? Significa melodia da pesada. Não se acha melodista assim em qualquer esquina. “O tempo é que vai passar / A gente só vai rodar”... Não, não se encabule com os agudos da Isadora. É assim, arrepia mesmo, não tem jeito. Às composições próprias, estão mescladas inéditas de Gonzaguinha e alguns outros autores, como Marcelo Yuka (“Me deixa”). Nessa faixa, o solo de Fernanda (“eu ia explodir, mas eles não vão ver os meus pedaços por aí”) mostra que nem só de boas harmonias vocais se faz a marca do grupo. Em "Você" (composição delas), é a vez de Amora se revelar uma intérprete pronta, com um timbre de agudos rasgados, meio moleque, que às vezes remete ao da tia, Marília Pêra – grande cantora escondida pela fama da atriz. A trama vocal das quatro beira o abuso no baião “Felicidade” e no samba “Geraldinos e arquibaldos”, ambas de Gonzaguinha. São arranjos sofisticados, em que as cantoras repartem entre si frases, palavras e até sílabas. Um difícil quebra-cabeça de vozes que soa leve como crianças brincando num playground. “É muito importante que eu seja feliz”, avisam, como quem desliza no escorrega sem olhar para baixo. O som das Chicas é totalmente brasileiro, sem qualquer concessão. Fidelidade de clã. Mas não precisava tanto. Com esse arsenal todo, poderiam dar belos passeios ali pelo terreiro mais pesado de Ângela Rô-Rô e Cássia Eller, botar um pouquinho de chiclete na banana. Substituir ao menos uma marchinha por um blues não faria mal a ninguém. O interessante das Chicas é que, na era do mimetismo, elas têm estilo. A voz limpa e elástica de Fernanda não lembra a da Gal, lembra a da Fernanda. O contralto aveludado de Paula não remete a Zélia Duncan, remete a ela mesma – e ninguém aqui vai cair naqueles joguinhos de procurar a voz da Elis na filha da Elis. Não tem filial, é tudo matriz. Um rap nunca soou tão melódico quanto o “Rap do Silva” (MC Bob Rum) executado pelas Chicas. E tem a força adicional de uma característica curiosa: o grupo tem boa presença tocando ao vivo, com dramatização, humor e expressão teatral – e consegue transpor parte dessa força “cênica” para o disco, com interpretações muito peculiares. No duo de Paula e Amora em “Você”, na levada mais quebrada, quase funkeada do disco, as cantoras-personagens parecem levar o ouvinte para cima do palco (“Você que é tão sensata, tão cheia de si / Sempre fazendo festa e se sentindo tão só / Você que sempre agrada e sem perceber / Insiste em seguir um caminho que não é... Você!”). O tema do “não-ser” aparece também na composição desabafo de Isadora “O que não sou”. É daquelas que depois da segunda audição você vai estar assobiando a melodia sem sentir. É música para fazer o pensamento voar. Aliás, a embalagem pop de “Quem vai comprar nosso barulho”, com uma capa de caricaturas meio flower power que remete ao estilo beatle de “Revolver”, traz uma receita divertida para cada canção. “Oração” é “para ouvir no escuro”, “Felicidade” é “para ouvir pelado”, “Você” é “para ouvir na fila”, “Tia Chica” é “pra batucar na coxa”. Já “Espumas ao vento”, com todas as sombras dos tons menores e uma interpretação sentida de Paula, mais um violino e um violoncelo para o golpe de misericórdia, está classificada “para ouvir...”. Aí a receita está errada. É para chorar. Agora larguem esse palavrório, voltem para o disco e fiquem por lá. Sem pressa. O tempo é que vai passar, a gente só vai rodar. fiuza@nominimo.ibest.com.br Receba os textos deste colunista por email
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